Foi aqui. Aqui, tantas vezes me perdi. Perdemo-nos. O Zé, a Lena, a Catherine, a Sophie, o Chico, a Beca e eu. Crianças curiosas, rebeldes e aventureiras. Verdadeiros caçadores de tesouros, num imenso e intrincado pinhal. Nadadores, nada nados, chapinhávamos tempo, na piscina do casal americano. Dormíamos sestas sem sono, nas esteiras penduradas à sombra dos pinheiros. E, à tarde, as bicicletas chamavam-nos à pista de areia. Às quedas e trambolhões, também.
Foi aqui. Aqui, a janela do quarto espreitava a serra. Lá, onde o nevoeiro das manhãs escondia o Palácio. Até se erguer, lenta e majestosamente, já à porta da padaria da Dona Mariana, lambuzada de açúcar e creme, das bolas de Berlim.
Foi aqui. Aqui, desconhecíamos o perigo. Ouvíamos o Eléctrico, antes da curva, e esperávamos impacientes. As caricas, alinhadas na linha, à espera das rodas de ferro. Passava o da manhã, o da tarde. Passava o ralhete. Ficavam as moedas, para a troca. Ficavam as lembranças dos momentos, nas despedidas chorosas.
"Não vás. Fica no Inverno. Vais à escola connosco."
… e as lágrimas rolavam amargas, salgadas. Queimadas pelo Sol de Verão. Ansiosas pelo próximo, pelo dia seguinte. Ansiosas pela lentidão do tempo.
Passava o Inverno, nas cartas de lá para cá, de cá para lá, à espera dos dias quentes. Regressavam, como todos os anos. Como regressam todas as memórias felizes.
