8h30
Entro pelo portão da escola, atenta ao sentido oposto. O instinto maternal, que vigia e protege o filho, é desviado pelos gritos de escárnio de pequenos “revolucionários”, ao encalço do ser lacrimejante que me abalroa.
- Por favor, leva-me para casa.
Soluçava.
- O que se passa aqui?
Questionei, confusa com o alarido.
- Leva-me para casa, para tirar os sapatos…
Continuava, entre lágrimas e soluços, ensurdecidos pelos risos de chacota, lentamente diminuídos, pela minha expressão de desaprovação.
- Porquê?
Perguntei, surpreendida.
- Eles estão a chamar-me nomes, e a gozar comigo, porque os meus sapatos foram comprados no mercado.
Continuou, entre lágrimas impossíveis de conter. O meu entendimento despertou.
- Como sabem eles onde compraste os sapatos?
- O “E” viu-me ontem a comprá-los, com a minha mãe. Hoje contou a todos, e todos me chamam nomes.
Estava explicado. O “E” era o “líder”. Um menino “bonito” e de “boas famílias”, educado com a satisfação dos seus “anseios”, odiado, temido e respeitado pela “inveja” de todos. A “menina” era filha de mãe pobre e divorciada a viver com um companheiro mais velho, violento e perverso. Os “sapatos” eram a prenda do seu aniversário. 8 Anos, sem bolo nem festa.
Depois da tentativa frustrada de promover paz e compreensão, “entreguei-a” temporariamente aos cuidados de outrem. Dirigi-me à minha casa. Esforcei-me, no curto espaço de tempo concebido para preparar uma festa de aniversário surpresa. Não foi notícia no Jornal, foi um dia. O dia em que a menina pobre substituiu o líder, ganhando o respeito, pela inveja de todos.
Não era aquela a minha intenção. Ao tentar promover alegria, para derrubar diferenças, apenas consegui trocar os lados, de lado.